05/07/2020

As cidades solares e a economia verde pós-pandemia

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A Redação 



Em um momento tão sombrio, como o vivido atualmente com a pandemia, em meio a tantas notícias funestas, uma boa nova surgiu no horizonte do setor energético brasileiro. A produção de energia solar no Brasil já ultrapassa a quantidade de energia gerada por centrais nucleares e a carvão ( G1, junho 2020) ! A soma é feita levando em conta as grandes usinas solares e pequenos sistemas que incluem residências, comércios, indústrias, produtores rurais e prédios públicos. O levantamento é da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR).

Segundo o mapeamento, são 5.763,5 megawatts (MW) de potência da fonte solar, ante um total de 5.586,8 MW de termelétricas movidas a carvão mineral e nucleares. “Com isso, a potência total solar ultrapassa em quase 4% a destas termelétricas, baseadas em recursos não-renováveis e com maiores impactos ambientais ao longo de todo o seu ciclo de vida”, comenta o presidente do Conselho de Administração da ABSOLAR, Ronaldo Koloszuk.

Entre as aplicações de pequeno, médio e grande porte, o mercado solar fotovoltaico brasileiro já trouxe mais de R$ 30 bilhões em investimentos privados ao país nos últimos anos. Destes, R$ 15,52 bilhões foram aplicados em usinas de grande porte, em especial nas regiões Nordeste e Sudeste, gerando energia para milhares de brasileiros pelo Sistema Interligado Nacional. Os outros R$ 14,59 bilhões, foram fruto de investimentos diretos de pessoas, empresas, produtores rurais e governos, em pequenos e médios sistemas, implantados por todas as regiões do país. Ao todo, são 2.928,0 MW em empreendimentos de grande porte e 2.835,5 MW nos sistemas em telhados, fachadas e pequenos terrenos.

Para o CEO da ABSOLAR, Rodrigo Sauaia, o Brasil é uma nação solar por natureza, com condições privilegiadas para se tornar uma liderança mundial na área. “A energia solar fotovoltaica reduz o custo de energia elétrica da população, aumenta a competitividade das empresas e desafoga o orçamento do poder público, beneficiando pequenos, médios e grandes consumidores do país”, diz Sauaia. E a tendência é que o parque de geração de energia solar no país só cresça ainda mais nos próximos anos, com, equipamentos cada vez mais baratos e acessíveis para empresas, governos e população em geral.

Um fato curioso desta pandemia é que estudos indicam que ela causou um aumento na produção de energia solar mundo afora. A explicação para o aumento da produção de eletricidade advinda de painéis solares tem a ver com a menor poluição. Essa a conclusão dos alemães, que na passada semana bateram o recorde do país, ao atingirem 32.227 GW de energia solar gerada. Se a Alemanha que retira do sol 40% da energia de que necessita, provou o que os cientistas já calculavam, ou seja, que as centrais solares são mais eficientes com menos poluição atmosférica, os britânicos também comprovaram o mesmo fato: que os painéis fotovoltaicos geram mais eletricidade com menos fumaça no ar. Conseguiram produzir 9,68 GW, valor que supera o recorde anterior de 9,55 GW, registrado em Março de 2019. Os resultados eram imagináveis com o lockdown quase que generalizado, sem tantos aviões, com o trânsito rodoviário brutalmente reduzido e o mesmo acontecendo com o marítimo, a quantidade de partículas de poluição no ar foi consideravelmente reduzida.

Apesar destes recordes de produção, que são louváveis, a Alemanha infelizmente ainda continua a ser dos países europeus que mais carvão queima para produzir eletricidade. Apesar disso, o peso do carvão na geração de energia elétrica na Alemanha, que era de 40% em 2016, tem caído consideravelmente nos últimos anos, e será absolutamente removido de suas fontes energéticas até 2038. Não por acaso, uma startup alemã, a Sinn Power, acaba de desenvolver uma plataforma marítima de geração híbrida de energia, capaz de produzir eletricidade a partir dos ventos ( eólica) , do sol e das marés ao mesmo tempo. Os primeiros protótipos dessa plataforma marítima híbrida serão instalados na costa da Grécia até o final do ano, em um projeto de geração de energia desconectado do sistema geral energético (off-grid) grego. Cada módulo é composto de quatro conversores de energia das marés integrados, painéis solares capazes de gerar 20KW e quatro pequenas turbinas eólicas de 6KW cada.

Mas apesar da pandemia ter tornado nossas cidades ainda mais solares, com a diminuição da poluição e o incremento da produção de energia limpa, este vírus está destruindo não só milhares de vidas, mas também economias inteiras. O FMI e o Banco Mundial estão prevendo uma retração de mais de 9% para a economia brasileira este ano. E o próprio FMI, através de sua diretora de gerenciamento de fundo monetário, Kristalina Georgieva, está incitando todos os países a investirem pesadamente para que a recuperação econômica também combata a crise das mudanças climáticas em curso no planeta ( Revista Forbes, junho 2020). Segundo ela, “Tomar medidas agora para combater a crise climática não é algo somente desejável, mas sim absolutamente imperioso, se quisermos deixar um mundo melhor para nossas crianças”.

O departamento fiscal do FMI, por sua vez, tem recomendado aos governos mundo afora, que atrelem suas linhas de financiamento para empresas à redução de emissões de carbono. Ainda segundo Georgieva, “O atual preço global do carbono é de apenas 2 dólares por tonelada, muito menor do que os níveis necessários para manter o aquecimento global abaixo de 2 graus Celsius, que estimamos ser de 75 dólares por tonelada”. Para que a transição seja justa e favorável ao crescimento, as receitas com impostos sobre o carbono podem ser usadas para fornecer assistência inicial às famílias mais pobres, reduzir os impostos onerosos e apoiar investimentos em saúde, educação e infraestrutura.

A chanceler alemã, Angela Merkel, faz coro com o FMI, desejando uma recuperação “verde” para as economias nesta crise sem precedentes causada pelo coronavírus. Em sua fala no encontro global climático de Petesberg, cerca de três semanas atrás, Merkel disse esperar difíceis discussões sobre como desenhar medidas de estímulo pós-crise e saber quais setores industriais e econômicos precisarão mais destes estímulos do que outros. “Será ainda mais importante que, se estabelecermos programas de estímulo econômico, devemos sempre ficar de olho na proteção do clima”, disse Merkel, acrescentando que o foco deve ser o apoio às tecnologias modernas e às energias renováveis. O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, na mesma conferência externou que pode haver uma oportunidade para o mundo nos tempos sombrios da crise do coronavírus. “O reinício pode levar a um mundo mais saudável e resiliente para todos, disse ele.

A Alemanha ocupará a presidência da União Europeia no segundo semestre deste ano. E concordou, semanas atrás, em construir um fundo de recuperação de trilhões de euros para reavivar economias devastadas pela pandemia. E já assinou um auxílio estatal de 1,8 trilhão de euros, que pelo visto terá financiamentos atrelados à diminuição de emissões de carbono. A União Europeia traçou como meta zerar suas emissões de carbono até 2050. Pois como diz o sábio pesquisador brasileiro Sergio Besserman, temos uma outra curva gigantesca para achatar além da do coronavírus, a curva climática, que é do tamanho do Evereste, se não maior.

Esta coluna quinzenal. “ Ambientes urbanos” é fruto de uma parceria do jornal “A Redação” com o Instituto Rizzo de cultura e meio ambiente.

Washington Novaes é jornalista
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