13/04/2018

Autoprodução ganha fôlego para retomar investimentos

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Canal Energia 

Definitivamente, investir em autoprodução de energia não é uma ação simples e nem é um ambiente para aventureiros. Esse é um terreno bastante ardiloso e cheio de riscos para aquelas empresas que procuram ter o controle mais preciso de custos importantes em seu processo de produção. Mas, começa a surgir no horizonte um cenário positivo que pode reabrir uma janela de oportunidade para este segmento. Uma delas é a economia que mostra sinais de recuperação após a recessão econômica. A segunda está intimamente ligada com a reforma do marco regulatório que traz o reconhecimento do autoprodutor como um agente do setor elétrico, uma modalidade que não existe oficialmente. E, mais recentemente, o fator preço, capitaneado pelas fontes solar e eólica nos últimos leilões, indicam um novo patamar de valores competitivos.

Invariavelmente os investimentos em autoprodução são realizados por grandes corporações que têm naenergia uma parte importante de sua competitividade atrelada ao valor desse insumo. São empresas que disputam o mercado internacional de commodities e que não podem estar suscetíveis às elevadas variações de preços da energia, como as verificadas no país nos últimos anos. Por este motivo são feitos os investimentos em geração própria. Mas ainda há novos grandes consumidores em atividades não tradicionais que também começam a entrar nesse mercado por meio da geração distribuída.

Segundo o presidente da Associação Brasileira de Investidores em Autoprodução de Energia, Mário Menel, a minuta de projeto originado da CP 33 representa um avanço no sentido de melhorar o ambiente de negócios que existe hoje no país. “Hoje o que temos oficialmente é muita insegurança neste segmento, não há comando legal por não haver essa figura nos conceitos básicos do setor elétrico, o consumo líquido não está consagrado em lei e é importante para as empresas”, comentou ele. “O capítulo da CP 33 veio na direção de tornar clara essa figura o que facilita o investimento por atribuir segurança jurídica a esses investimentos o que é importante para melhorar a nossa competitividade industrial em um momento em que isso é fundamental para a economia brasileira”, acrescentou.

Não há preconceito quanto a fontes para novos projetos de autoprodução

Mário Menel, da Abiape

Um dos pontos que tende a impulsionar a autoprodução, indicou Menel, é a possibilidade de o investidor poder entrar em uma usina já existente ou na composição societária de um projeto, mas na parcela onde não há controle da sociedade. Assim, continuou, há uma mitigação de riscos e ainda não compromete as garantias corporativas desses autoprodutores, pois como as usinas são financiadas via project finance, por mais que não seja puro, mas esse investidor não ocupa seu caixa para financiar uma atividade que não é seu core business. Ao mesmo tempo garante uma parcela de energia para suas operações.

Essa visão é compartilhada pela consultora da PSR, Paula Valenzuela que vê um aumento do potencial de autoprodutores no país justamente por esses dois fatores apontados pelo executivo da Abiape. Em sua visão, qualquer nova possibilidade de participação desses investidores abre uma janela importante por facilitar o investimento para esses consumidores livres terem sua própria energia. Contudo, ela destaca que há preocupações, pois há um risco de aumento nas distorções tarifárias.

Até porque, lembra, a recente onda de migrações no mercado livre teve como motivação o valor da tarifa no mercado cativo. E esse incentivo pode ser o mesmo para a expansão da autoprodução. “É preciso que haja um processo educativo para mostrar às empresas que não é apenas pelo preço daenergia que se deve buscar seja o mercado livre ou a autoprodução, mas sim pelo correto gerenciamento do risco de mercado”, opinou.

Autoprodução deve ser vista como gerenciamento de risco e não apenas pelo preço

Paula Valenzuela, da PSR

De acordo com a diretora da Thymos Energia, Thaís Prandini, a autoprodução possui um grande potencial de investimentos. Apesar deste segmento datar da década de 1990, há grandes consumidores que podem seguir esse novo caminho. Ela afirma isso com base no aumento do número de consultas que a empresa vem registrando nos últimos meses, principalmente após o resultado dos leilões do final do ano passado que apresentaram valores bastante competitivos para as fontes solar e eólica.

“O resultado desse leilão de abril é um ponto fora da curva, mas aqueles na casa de R$ 120 para a solar e R$ 100 para e eólica, que são valores reais e possíveis diante de um mercado livre onde os valores para 2019 estão na casa de R$ 200/MWh”, avaliou a executiva.

Em sua avaliação, as alterações para o mercado da autoprodução têm um efeito secundário no mercado de energia. Até porque esses agentes já existem há tempos. Apesar disso, considera positiva a mudança. “No momento temos muita procura das empresas olhando com mais interesse a autoprodução. Ainda mais depois dos preços em leilões para a energia solar e eólica que temos visto. Esse movimento não vem tanto pela CP 33, mas o texto da minuta tem a virtude de deixar esse mercado mais claro e transparente ante o que conhecemos atualmente”, disse Thaís, lembrando ainda que há muitos grandes consumidores cujos contratos estão próximos a vencer e procuram alternativas para manter seu fornecimento de energia.

Mesmo com a divisão de 5 MW que está colocada na minuta originada da CP 33 para a autoprodução separando as classes de consumidores, a diretora da Thymos acredita que em ambos os perfis de consumidores o crescimento deverá ocorrer. E com destaque para as duas fontes renováveis que vêm destacando-se nos leilões para o mercado regulado. Para aqueles autoprodutores em GD a expansão se dará pela solar e eólica. A fonte hídrica deve continuar a participar da expansão, mas o preço acaba se tornando uma barreira.

Há muito interesse das empresas por autoprodução, principalmente, depois dos últimos leilões

Thaís Prandini, da Thymos Energia

Paula, da PSR, argumenta ainda que a cobrança de encargos para os autoprodutores em baixa tensão pode ser compensada a partir do momento em que outro ponto da CP 33 avance, a valoração de atributos ambientais e as externalidades de cada fonte. Apesar do incentivo aos grandes consumidores acima de 5 MW, essa proposta que consta do projeto de novo marco regulatório pode ser interessante também para aquelas fontes enquadradas como GD. “Pode ser uma medida que contribua par o consumidor avaliar seu interesse na autoprodução por meio das fontes renováveis, e isso, facilitaria uma maior adesão”, estimou.

Esse já bilionário mercado da geração distribuída recebeu bem a inclusão da figura do autoprodutor na CP 33. Na avaliação do presidente executivo da ABSOLAR, Rodrigo Sauaia, o ato de investir demanda segurança jurídica e incluir na minuta o tema, regulamenta essa figura e eleva, consequentemente, o interesse na micro e mini geração distribuída.

“Este é um mercado nascente e crescente com grande potencial de investimentos futuros e que dependem da capacidade do governo implantar um marco legal transparente e seguro, que na GD ainda é feito somente por meio de resoluções da Aneel”, argumentou. “O modelo de autoprodução, apesar de ser caracterizado por grandes consumidores eletrointensivos pode ser replicado na micro e minigeração distribuída, pois os investidores buscam o mesmo resultado, maior poder de gestão de preços e previsibilidade de custos desse insumo para seu negócio”, apontou o executivo.

Sauaia corrobrou a percepção de que o novo patamar de preços para a fonte atinge pela primeira vez um nível que abre a possibilidade exploração de um novo mercado para a tecnologia por meio do ACL. Inclusive, destacou ele, a expectativa da entidade é discutir esses aspectos no Brasil Solar Power, evento realizado em parceria com o Grupo CanalEnergia, que acontece em junho, no Rio de Janeiro, de uma forma mais profunda com especialistas no tema. Isso porque, reconhece que há desafios distintos do mercado regulado para a expansão da fonte no livre.

Solar possui a maior previsibilidade de geração na base mensal e anual entre as renováveis

Rodrigo Sauaia, da ABSOLAR 

Um dos pontos que mais causam preocupação para os investidores é a sazonalidade bem definida da solar no curto prazo. Sauaia explica que apesar de gerar apenas durante o dia, quando se analisa os dados de produção mensal e anual verifica-se um nível de produção estável. “Uma das mais estáveis e previsíveis entre as renováveis, o que ajuda a calcular e estimar com certo nível precisão o atendimento da demanda”, defendeu o executivo. Aí, completou ele, é necessário que haja outras fontes para compensar essa sazonalidade e buscar o aproveitamento mais eficaz e eficiente por meio de sinergias entre as fontes no sentido de obter ganho de competitividade. O armazenamento pode ser uma alternativa, mas ainda há barreiras como o preço – apesar da curva descendente – mas é necessária ainda a regulação específica para esses equipamentos.

Essa percepção de potencial do que pode ser chamado de autoprodução por meio da geração distribuída e que tem-se visto em empresas de menor porte como datacenters e outras que anteriormente não eram vistas é confirmada por Marcel Haratz, diretor da Comerc Solar. Em termos gerais, o crescimento é grande e quem lidera é a solar. Ele também cita os preços realizados nos últimos leilões como um referencial que vem atraindo investidores. Mas em sua avaliação as tradicionais fontes como PCH e biomassa também podem participar da expansão da autoprodução, há espaço. Contudo, a oportunidade que se mostra está na solar, em decorrência da queda de custo e o aumento da eficiência.

“A solar tem uma característica diferente, pode ser utilizada por clientes que possuem muitas unidades em baixa tensão como locadora de carros, empresas de telefonia, empresas não tem a opção de acessar o mercado livre. A alternativa para atender a autoprodução está na GD solar, a diferença está nos encargos.”, comentou Haratz. Com essa característica, a tendência é de crescimento do mercado de forma extensiva. Em sua análise o potencial é bem significativo se olhar para a fonte solar, até porque a base de comparação ainda é pequena.

Autoprodução via GD é oportunidade para empresas de grande demanda, mas que estão na baixa tensão

Marcel Haratz, da Comerc Solar

Nesse sentido, uma das primeiras empresas que adotaram esse tipo de solução em grande escala foi a Claro Brasil, empresa de telecomunicações que detém as marcas Claro, Embratel e Net e colocou em andamento um projeto para suprir até 80% das suas necessidades no país, que é de 600 mil MWh/ano por meio de fontes renováveis. A companhia aponta ser este o maior projeto de GD do país entre empresas privadas e o primeiro no segmento de telecomunicações.

Em novembro do ano passado, inaugurou o primeiro complexo de usinas, criando a maior operação solar dedicada a uma empresa, nas cidades de Várzea de Palmas e Buritizeiro, em Minas Gerais. Neste ano, está prevista a inauguração de mais 20 parques solares em 15 estados, quatro parques eólicos sendo três no Rio Grande do Sul e um no Rio de Janeiro, seis usinas de biogás em três estados e outras três de cogeração qualificada, na região Nordeste. Na segunda fase do projeto, a ser implantado ao longo de 2018, será também incorporado ao programa energia proveniente de pequenas centrais hidrelétricas.

Toda essa estrutura tem como meta atender às mais de 40 mil unidades consumidoras de baixa tensão, entre antenas, torres e toda infraestrutura, para atender mais de 85 milhões de clientes da companhia. A estimativa é de redução média de 30% nas despesas anuais com energia. E energia representa cerca de 5% dos custos da empresa no país.

Energia é um dos maiores custos operacionais da empresa e, por isso, precisa ser previsível

João Pedro Neves, da Claro Brasil

João Pedro Neves, diretor de Suporte Financeiro ao Negócio da Claro Brasil, explicou que esse é um dos cinco principais custos que a empresa possui. “A energia é, naturalmente, importante para as nossas operações que precisam estar em funcionamento 24 horas por dia, pois prestamos serviço de telecomunicações e necessitamos desse fornecimento”, apontou ele. “O que acontece, com as oscilações do mercado de energia começamos a perder a previsibilidade e ficamos assustados, um insumo tão importante para a empresa não poderia variar muito como veio ocorrendo, em até 30% de um ano para o outro, afinal tem um peso muito relevante dentro de nossa estrutura de custos operacionais”, apontou.

Com essa visão em mãos, a empresa lançou o programa com base na geração distribuída para atender a quase toda a sua demanda no final de 2016. E a previsão é de que até o final do ano todas as unidades planejadas estejam operacionais, podendo, por alguma ocasionalidade estender-se para o início de 2019. No programa da Claro estão previstas ainda ações de eficiência energética com sistemas de automatização e substituição de iluminação de seus prédios com a troca de 90 mil lâmpadas até o final do ano. O projeto prevê a integração dos controles de temperatura com iluminação.

Menel, da Abiape, lembra que o setor, quando este ainda era dominado pelas grandes empresas eletrointensivas, lançou um plano de expansão de investimentos que hoje perdeu seu sentido. A configuração e o cenário brasileiro eram diferentes. Com a chegada da crise houve a restrição dos aportes e as empresas passaram a ser exportadoras de energia que tornou-se um bom negócio por terem paralisado unidades de produção.

Uma das fazendas solares da Claro Brasil já em operação comercial

Hoje o cenário para a autoprodução trouxe outras fontes tão interessantes em termos de preços quanto as tradicionais usinas hidrelétricas, estas últimas, porém, passaram a apresentar mais dificuldades ambientais. “Hoje o cenário está diferente e olhamos com carinho a eólica, sua facilidade de implantação e projetos disponíveis, há projetos desenvolvidos com uma série de vantagens e não descartamos nem mesmo a solar que dá demonstrações de que vai se tornar competitiva em breve. Então, não temos preconceito”, finalizou.
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