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ESG: demanda por certificados de energia renovável cresce exponencialmente

01/03/21 | São Paulo

Estadão

Com a pressão mundial pela conscientização do capitalismo ecológico, cada vez mais nos deparamos com a adoção de medidas que visam reduzir os impactos ambientais causados pela sociedade. Um dos conceitos que mais têm crescido nas empresas em âmbito global e mudado o direcionamento dos investimentos é o ESG (Environmental, Social and Governance), que tem como objetivo representar um conjunto de fatores e critérios que tornam a filosofia de qualquer investimento mais sustentável, no sentido de valorizar questões ambientais, sociais e de governança corporativa.

O início dos investimentos em práticas ESG ainda é recente, porém já é possível avaliar resultados do gerenciamento destes ativos. Em pesquisa realizada pelo MSCI Incorporation, foram comparados os índices das melhores empresas ESG com os resultados de um dos principais índices das bolsas dos Estados Unidos, o S&P 500. O resultado não foi surpreendente. As empresas ESG tendem a apresentar performance superior do que a média das 500 melhores empresas de capital aberto da bolsa americana.

Não foi surpresa porque os consumidores estão cada vez mais atentos as questões sustentáveis. Para se ter ideia, segundo pesquisa da Union + Webster, 87% da população brasileira prefere comprar produtos e serviços de empresas sustentáveis. Já 70% dos entrevistados afirmaram que não se importam em pagar um pouco mais por isso.

Não é surpresa também que a BlackRock, maior companhia mundial de administração de patrimônio, está pressionando empresas para que assumam o compromisso de reduzir a zero suas emissões de poluentes até 2050. A gigante que detém 8,7 trilhões sob administração já anunciou que vai retirar investimentos das empresas que não atingirem tais metas.

E nesse contexto, portanto, que vem crescendo no Brasil a demanda por certificados de energia renovável, também conhecidos como RECs. Existem algumas opções no mercado, porém como critério de exemplo, talvez o mais conhecido seja o do Instituto Totum. Os certificados supervisionados e auditados pela entidade são do sistema global I-REC (International REC Standard). Cada certificado representa 1 megawatt/hora de energia que foi injetada na rede a partir de uma fonte de geração de energia renovável (eólica, fotovoltaica, hidráulica ou biomassa) certificada em um determinado período, funcionando como um carimbo simbólico da energia consumida.

Como principal benefício, a aquisição dos RECs permite a rastreabilidade da energia consumida e são reconhecidos internacionalmente, podendo ser utilizados para o cumprimento de algumas das principais iniciativas e metas de sustentabilidade, como a Iniciativa Global RE 100, o Escopo 2 do Programa Brasileiro GHG Protocol e a Certificação Leed. Os certificados também servem para melhorar os indicadores em programas de reporte, como o Carbon Disclosure Program (CDP), Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) e o Down Jones Sustainability Index (DJSI).

Já para os emitentes do certificado, o registro no I-REC é uma forma de obter uma receita adicional. Essa receita serve de incentivo direto para que o produtor continue investindo em geração de energia renovável e em ligados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

De acordo com o Instituto Totum, este é um mercado em expansão. Impulsionados por acordos internacionais de redução de carbono e em investimentos de empresas em ESG, o Brasil quasedobrou a emissão de certificados I-REC. Segundo dados da entidade, em 2019 foram 2,5 milhões, já em 2020 o número ficou em aproximadamente 4 milhões, com 153 empreendimentos certificados. A Projeção para 2021 é de fechar o ano com mais de 8 milhões de certificados emitidos e 200 usinas. Os números colocam o País atrás apenas da China.

Os números estão intrinsecamente ligados ao aumento de usinas homologadas a emitirem certificados. Passou de 50 em 2018 para 106 até setembro do mesmo ano. Essas centrais somam uma potência aproximada de 7.000 MW, fazendo o Brasil liderar o ranking mundial da categoria, seguido por China e Índia, com respectivamente 80 usinas (5.000 MW) e 37 usinas (1.000 MW) que atendem os requisitos do padrão global de compra de energia limpa.

Os dados, portanto, mostram que os Recs, tornaram-se fator competitivo para as empresas. A Heineken, cervejaria holandesa, firmou uma meta bastante ousada: ter sua produção e envase supridos 100% por energia renovável até 2023. Como ela pretende chegar lá? Comprando certificados de energia renovável.

Reflexo desta mudança de comportamento da sociedade civil e do mercado também pode ser compreendida por meio do estudo do Deutsche Bank sobre crescimento em fundos de investimento com mandatos em ESG em um horizonte de 17 anos. É esperado que haja um crescimento até 2036 de mais de 433%, quando comparado à 2018. Esta previsão demonstra que o aumento destes investimentos poderá acelerar ainda mais e estará completamente integrada em gerenciamento de ativos sustentáveis num futuro próximo.

Já a Moody’s, uma das principais agências de classificação de risco de crédito do mundo, aponta os critérios ESG como fatores relevantes em 33% das 7.637 avaliações do setor privado publicadas em 2019.

O crescimento do interesse pela certificação e compra dos RECs sinaliza que as empresas estão preferindo consumir energia renovável e, ao mesmo tempo, mostra o compromisso com a mudança de comportamento energético. São inúmeras as notícias de empresas se comprometendo com o consumo apenas de fontes renováveis. Ambev, Google, Apple, Facebook, Amazon, todas as big techs, por exemplo, têm seus planos para isso. Uma lição que fica para todo o mercado.

*Daniel de Diego Pereira é engenheiro mecânico e especialista em mercados de energia da Trinity Energia